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1999: Mais que música

Achei interessante essa matéria nesse site sobre o Pato Fu. Sem pedir permissão 8) vou transcrever ele aqui, porque não achei um jeito fácil de acessar a matéria pelo index do site. Mas a fonte está relatada, créditos mantidos para o tal Abonico Smith!

Leia mais daqui pra frente…

09.OUT.1999

INFORMAÇÃO
PATO FU
Por Abonico Smith

Agosto, 1999. Na festa dos melhores clipes da MTV Brasil, o público continua preferindo o rock, elegendo o Raimundos na categoria Escolha da Audiência. Apesar de tudo, a emissora continua insistindo em martelar as teclas do axé, pagode e MPB, inclusive programando para o evento shows de Ivete Sangalo, Art Popular, Tropicália (Caetano, Gil, Rita Lee e Tom Zé) e Clube da Esquina 3 (Milton Nascimento, Lô Borges, Samuel Rosa e o paulistano Nando Reis). Fernanda Takai é escalada para anunciar a apresentação dos conterrâneos mineiros. Um dia antes, bate um ataque em Milton Nascimento e o cantor exige o afastamento de Fernanda, sob a condição de não subir ao palco. A MTV acata o pedido e substitui a vocalista do Pato Fu por um de seus VJs.

A atitude coronelesca deste grande ícone da nossa música popular só fez jogar mais luz em cima de um problema crônico que os novos artistas brasileiros andam enfrentando de uns tempos para cá: a necessidade de ter a bênção de algum veterano de renome. Raimundos não seriam o que são se não tivessem sido lançado pelos Titãs. Chico Science, gravou e cantou algumas vezes com Gilberto Gil. Pedro Luís, o da Parede, teve músicas gravadas por Ney Matogrosso e Herbert Vianna. Marina Lima projetou a carreira solo de Alvin L. Caetano Veloso fez grandes porpagandas dos Racionais “Emecês” antes da turma de Mano Brown surpreender nas vendagens, além de elogiar o Sepultura. Samuel Rosa fez de seu Skank um contínuo da velha escola cancioneira da MPB. Jota Quest só estourou depois de fazer baixar o espírito jovemguardesco de Roberto Carlos E o Pato Fu? Os mineiros assumiram, até de maneira inconsciente, a firme postura de não andarem com ninguém, não prestarem reverência a ninguém. São o patinho feio, aquele garoto tímido deslocado que não se dá com ninguém na escola. O ser esquisito longe de todos, que se propõe a traçar seu próprio rumo sem interferências alheias. Talvez isso tenha sido o detalhe que desagradara ao velho comandante do Clube da Esquina, já que a banda insisite nunca ter havido qualquer atrito entre eles em entrevistas e declarações anteriores. Talvez, por isso mesmo, tenha se transformado no nome mais interessante já revelado pelo pop brasilis nesta década.

Segundo a sabedoria popular, mineiro é mesmo come-quieto. No que depender do Pato Fu, mais uma vez se confirma a idéia. Devagarzinho, sem fazer muito alarde, o grupo mineiro foi chegando. Um pequeno hit radiofônico aqui, um bom clipe ali, shows seguidos acolá. Formou uma fiel legião de fãs em várias cidades. Toda esta constância de cinco anos para cá (tempo em que a banda está no elenco de uma gravadora multinacional) manteve o Pato Fu no pique.

Outra explicação para a trajetória ascendente de sucesso é o conceito em torno do qual John (guitarra, vocais e cérebro musical do grupo), Fernanda Takai (violão e vocais), Ricardo Koctus (baixo) e posteriormente Xande Tamietti (bateria) se juntaram: fazer música sem preconceito. “Nossa concepção original foi o contraste. Procuramos sempre ouvir e incoporar o novo. Estamos longe de posturas mais ortodoxos”, explica John ao 1999, voltando a ressaltar justamente o ponto pelo qual sua banda sempre sofreu comparações com os geniais e não muito diferentes Mutantes (mais o fato de ter à frente um menina de timbre vocal doce).

O guitarrista, entretanto, nem precisava ter dito isto. É só ouvir o novo álbum do grupo, lançado nesta semana. Você vai se convencer de que se existe algum nome pop apontando para o futuro, o Pato Fu é este nome. Isopor é surpreendente eletrônico. A parceria com o produtor Dudu Marote, que já havia levantado a bola da banda no bom disco anterior Televisão de Cachorro está mais afiada do que nunca. “Descobrimos que nossa relação tinha muito mais caldo para dar”, atesta John. “Nós temos afinidade. Escutamos desde rock dos anos 80 à música eletrônica de ponta. Acho que isto nos levou a fazer uma produção feliz. Foi tudo muito tranqüilo, quase sem brigas ou conflito de idéias.”

E foi ouvindo de Radiohead a Cure, de Clash a Björk, de Massive Attack a Echo & The Bunnymen que o novo álbum foi se moldando. A forma final apresenta canções deliciosamente pop andando de braços dados com o drum’n’bass, trip hop e até mesmo o lounge kitsch com influências sixties.

Conceber um trabalho como este é algo absolutamente fora do comum para uma banda brasileira que é lançada por uma grande gravadora, não pára de tocar na rádio e volta e meia tem clipes exibidos pela MTV. Todo o resto deveria tomar Isopor como um grande exemplo e fazer também um upgrade na carreira. Voltando à rusga com Milton Nascimento, John manda avisar: “se alguém souber o porquê, por favor, avise a gente”. Segundo o guitarrista, ele ainda não teve a delicadeza de se explicar pela atitude, nem mesmo por intermédio de assessores ou gravadora. “Fomos vasculhar nos nossos arquivos e não achamos qualquer entrevista em que tivéssemos falado mal dele. Uma explicação possível pode ser uma declaração de Rubinho Troll, da minha antiga banda Sexo Explícito, na qual ele negava qualquer influência do Clube da Esquina. Talvez ele ainda conserve esta mágoa antiga. Mesmo assim, tanto o Sexo Explícito como o Pato Fu são insignificantes perto dele. Eu sou uma pulga diante de sua importância.”

Faixa a faixa

“Made In Japan”: Pizzicato Five na cabeça. Fernanda canta em japonês perfeito versos que mais lembram antigos seriados nipônicos de tevê. Lounge kitsch para dançar. Refrão pegajoso, com direito a palminhas e muitos tchu-ru-ru-rus.

“Isopor”: Quase cinco minutos de trip hop viajandão. A letra é sobre gostar de música. A batida lenta, as linhas graves extremamente repetitivas e os efeitos sobre os vocais dão à faixa ar angustiante e claustrofóbico.

“Depois”: Gracinha, fofura, deliciosamente irresistível. Não há mel que resista à definição da faixa. A melodia e o groove bolados por John pegam qualquer um pelo pescoço. A harmonia vai na linha neocaliforniana de Sugar Ray e Smash Mouth. A voz doce de Fernanda combina o clima de indecisão juvenil da letra. Quando você volta à consciência não há como parar de cantarolar a música.

“Um Ponto Oito”: Deus no céu e Radiohead na Terra. Em sete minutos, este épico traz historinha trágica e cheia de reflexões. Trechos se revezando entre calmaria, guitarras furiosas e pancadaria drum’n’bass falam sobre prepotência, egocentrismo, inconseqüência, atropelamento, culpa, pobreza e morte. Inflexões vocais lembram claramente Björk.

“Imperfeito”: Releitura da cafonice jovemguardista.

“Morto”: Música incidental de Burt Bacharach, guitarras explosivas e flertes discretos com o big beat. O vocal de John dá mais punch à faixa.

“O Filho Predileto do Rajneesh”: Manifesto feminista que ganha traços de safadeza na voz de Fernanda. Na-na-nas sixties bem poderiam colocar a música na trilha de Austin Powers. É uma música antiga de Rubinho Troll, parceiro de John nos tempos de Sexo Explícito.

“Perdendo Dentes”: Canção pop nos velhos moldes. É o momento mais retrô do disco.

“Saudades”: Poesia com harmonia bossanovista e beat drum’n’bass.

“O Prato do Dia”: Ressurreição do melhor do rock alternativo americano, bastante melódico e com batida herdada do punk.

“Quase”: Easy-listening de fossa. Violão, piano, baixo eletrônico e chiados de vinil velho.

Disco a disco
Por Omar Godoy

Rotomusic de Liquidificapum (94): Pouco dinheiro e muita criatividade neste trabalho de estréia lançado pela gravadora independente mineira Cogumelo. O mundo ainda era grunge, mas o trio ousava experimentar com o pop de bases eletrônicas. O álbum é uma coleção de underground hits. O refrão de “O Processo de Criação Vai de 10 Até 100 mil” gruda na cabeça imediatamente, assim como o da belíssissima canção “Meu Pai, Meu Irmão”. Esta última tem uma das melhores letras de John e merece releitura urgente.

Gol de Quem? (95): Primeiro trabalho por uma gravadora grand, a BMG. O som se torna mais coeso e a razoavel produção de Carlos Savalla (espécie de ajudante sonoro dos Paralamas do Sucesso) dá ao disco um verniz pop que o grupo não tinha. A bela “Sobre o Tempo” apresenta o trio para o Brasil. Muitos fãs afirmam que o Pato Fu nunca mais fará uma música tão boa. Outros destaques são “Mamãe Ama É o Meu Revólver” (de autoria de Rubinho Troll, ex-parceiro de John no Sexo Explícito), “Vida Imbecil” e “Spoc”. Sempre abusando de covers, o grupo estoura na MTV com “Qualquer Bobagem”, dos “musos” Mutantes.

Tem Mas Acabou (96): Certamente o pior registro do trio. O criativo André Abujamra erra feio na produção e as músicas são pouco inspiradas. Destaque para “Água” e “Pinga”, dois sucessos na MTV.

Televisão de Cachorro (98): O Pato Fu volta à boa forma e apresenta boas canções como “Antes Que Seja Tarde” e “Canção Para Você Viver Mais”. Covers voltam a invadir o repertório e o baterista Xande é definitivamente efetivado no grupo. Começa a inspirada parceria com o produtor Dudu Marote.

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